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Premium  “As canções parecem escritas só para ele.” E agora, Salvador Sobral?

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Faz o que quer com a voz. Ela parece acompanhar Salvador Sobral seja qual for a canção a que ele se lance, de um clássico como Smile até A Case of You , de Joni Mitchell, de Nem Eu , de Dorival Caymmi a Amar pelos Dois , de Luísa Sobral, que caiu como um belíssimo extraterrestre na Eurovisão.

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Em março escutaremos essa voz noutras paisagens: chega o esperado segundo álbum de originais de Salvador Sobral. Por agora ainda sem nome definitivo, o álbum será editado pela Warner Espanha, e logo lançado pelo mundo.

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Nele haverá uma valsa francesa, haverá um (único) dueto com António Zambujo, duas canções de Júlio Resende – uma delas já conhecida mas noutra versão, Mano a Mano , com poema de Maria do Rosário Pedreira, e Presságio , de Fernando Pessoa, que já tem sido tocada ao vivo. Haverá ainda uma canção original de Luísa Sobral, algumas com letras de Salvador Sobral, uma versão de uma canção do mestre brasileiro Lupicínio Rodrigues e outra de Anda Estragar-me os Planos , de Francisca Cortesão e Afonso Cabral, que também passou pelo Festival da Canção. Para produtor, o músico escolheu alguém próximo: Joel Silva, o baterista que o tem acompanhado

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Subscrever Salvador Sobral, que apresentará o disco em maio nos coliseus, sempre pareceu tão à vontade no palco quanto por vezes desconfortável fora dele, com a fama a assentar-lhe como uma camisola visivelmente desconfortável e áspera. Afinal, tudo aconteceu depressa e sempre à vista de muitos. E nem tudo tinha que ver com música. Pelo meio, houve a fragilidade de saúde e um transplante de coração que lhe deu uma segunda vida. Mais uma vez, tudo aconteceu à vista de muitos

Quando, em 2016, Salvador Sobral falou com o DN, depois do lançamento do seu primeiro álbum, Excuse Me , não estávamos a dois anos, mas a anos-luz dos seus números de 2018 no Spotify: seis milhões de streams , 957 mil fãs, 405 mil horas a escutá-lo, tudo isto em 65 países. Quando o apresentávamos, ainda referíamos o rapaz que participou nos Ídolos , influenciado por Ray Charles e Stevie Wonder, e, também de alguma maneira para o identificar, a irmã, Luísa Sobral. Entre um e outro momento, claro, a Eurovisão

Todavia, houve sempre quem, sem precisar de um êxtase nacional ou global, logo soubesse o que tinha à frente. Júlio Resende, pianista que o acompanha e coprodutor do seu primeiro álbum, que Salvador conheceu numa jam session do Hot Club, por exemplo, ou Nuno Nabais, professor universitário de Filosofia e diretor da Fábrica do Braço de Prata

“Cada canção como se fosse a última”

“O Salvador veio pela primeira vez à Fábrica a convite do Júlio Resende. Foi em 2015″, recorda Nabais. Era sexta-feira, dia do concerto sempre assegurado pelo pianista

“Confesso que fiquei chocado quando olhei para ele pela primeira vez. Parecia um adolescente assustado. Pensei que o Júlio tinha exagerado no seu esforço em apoiar músicos em início de carreira. No entanto, logo ao primeiro acorde, assisti a uma das grandes transfigurações produzidas na Fábrica. O Salvador agarrava cada canção como se fosse a última. Num repertório vastíssimo, ele fazia vibrar com a mesma intensidade os graves de uma modinha brasileira, as frases arranhadas de um blues, o aveludado de um bolero, a alegria rouca de um standard de jazz. O caso mais deslumbrante foi aquele em que o Salvador, numa mesma semana, se apresentou em quatro noites seguidas com quatro concertos diferentes.” De boleros latino-americanos a Chet Baker ou ao que viria a ser o projeto rock Alexander Search

“Na limpidez da voz do Salvador a Fábrica percebeu que tinha colocado em órbita um novo cometa”

Sobral tornou-se presença semanal nos dois anos seguintes. “Todos pudemos acompanhar semana a semana o esculpir lento de um estilo absolutamente novo. A diversidade de registos que o Salvador cultivava, sempre com músicos diferentes e com programas muitas vezes aparentemente inconciliáveis, e sobre um fundo de uma enorme fragilidade física, conduziu o Salvador àquele modo desajeitado de segurar o pescoço e as mãos enquanto dava vida a canções que cada vez mais pareciam terem sido escritas só para ele.”

Para quem o conhecia da Fábrica, vê-lo apurado para a final em Kiev apareceu “como uma consequência natural das centenas de horas passadas a crescer na Sala Nietzsche. Na noite de 13 de maio de 2017 todos seguimos em direto a grande final no nosso ecrã gigante. E na limpidez da voz do Salvador a interpretar a canção escrita expressamente para ele pela Luísa Sobral, a Fábrica percebeu que tinha colocado em órbita um novo cometa”